
Creio que o poema, ainda sem título, seja uma manifestação da amplitude da tristeza do personagem, Ernesto López.
Em López encontramos constantemente uma excepcional negação da vida e de suas possibilidades. Mas o posicionamento do poeta é sempre paradoxal: viver e morrer são quase que sinônimos em sua poesia.
Concebi o poema num dia chuvoso e utilizei o meu próprio sentimento de desconforto para torná-lo uma fala contundente de López.
Talvez o poema nos leve a um passo da heteronímia de Pessoa, porque nele há, de fato, a fala de um personagem, ou seja, trata-se de tornar os versos as partes de um monólogo interior e que por vezes é semelhante a uma conversa.
O poema de López é uma fala e sua trajetória rumo ao suícidio compõem o enredo de uma peça de dramaturgia. Destarte, o livro de López pode talvez ser menos um aglomerado de poemas e mais a fala de um persoangem em cena.
