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quarta-feira, 18 de junho de 2008


O velho poeta Bukowski


"Eu não vou muito a bares. Tirei isso do meu sistema. Hoje, quando entro num bar, sinto náuseas. Freqüentei muito, enche o saco. Os bares servem para quando somos jovens e queremos brigar, dar uma de macho, arrumar umas mulheres. Na minha idade, eu não preciso mais dessas coisas. Agora só entro nos bares para urinar. Às vezes, entro e já começo a vomitar".
(Bukowski)

Nunca li nada de Bukowski, mas algumas trechos sobre sua biografia me interessaram de modo comprometedor (o modo que nos deixa com o desejo de conhecer de fato). Penso que é uma certa mania esta o despertar da paixão pelos malditos, os que ficam bêbedos e são livres.

Tive o mesmo sentimento quando li sobre Rimbaud, Ginsberg, os hippies e a juventude de 1968. Trata-se do estranho anseio de ser livre. O mesmo também sinto por Sartre. Mas, com sinceridade, penso que sou semelhante a Proust, a Fernando Pessoa, a Drummond. Eu sou acanhado. Decerto, é muita pretensão ficar nessa tentativa de comparação a grande escritores. Na verdade, é um costume dos meus treze e catorze anos quando à noite eu sentava na mesa da cozinha e imaginava uma reunião de poetas famosos. Um sarau de malditos, uma sociedade de poetas. Eu ficava por horas recitando poemas.Em falta de uma sociedade real de poetas criei a minha própria, inventei os meus próprios poetas-personagens: Eva, Catherine Marie, Ernesto López, Franz Eddie e Lazzaro Borges.

Quando li que Bukowski adorava os bares lembrei de Ernesto e do Livro da embriaguez, que estou escrevendo vagarosamnete desde 2006. Apesar de vê em Ernesto uma aproximação com Álvaro de Campos, Mário de Sá Carneiro e Rimbaud. Num poema de Ernesto ele afirma que seu deus é Álvaro de Campos. Porém, agora aparece esse puto.

Enfim, maldito velho safado (Bukowski) nos falaremos. É verdade que será uma relação de inveja, já que sou um tímido rebelde tímido.



Av. Sapopemba - dezembro 2007 (por Rudinei Borges)



...esta casa amarela entre outras casas amarelas. O horizonte infindo é um concreto vago. Se pudéssemos comê-lo sentiremos um gosto amargo. Tudo nesta manhã é amargo. Menos o manequim dos biquínis roxos e a escada rolante vagarosa e rolante. Hoje, sou isto, amanhã aquilo. Não, eu sempre fui isto: um almoxarifado. O silêncio de domingo, o sino. Aquela senhora, interessante senhora do Ipiranga, ela come as unhas e o cabelo foi penteado às pressas. Aquela senhora olhou para mim. Não gosto que olhem para mim. Que olhem para as paredes, para o teto. Olhar para mim? Ah, que desperdício de energias. Um espelho? Para que serve um espelho quando não queremos olhá-lo? Talvez para recordar que um dia debaixo da porta houve uma carta e que as chaves são semelhantes aos chifres de Lúcifer. Um dia vi Lúcifer. Mas Lúcifer é imbecil e poeta. E eu não gosto de poetas. Aliás, o que tenho feito, senão odiado este recital trágico. Meu caro, Jude, a vida é perigosa como estas estátuas. Não duvide. Este homem que lê, ler a si mesmo vagarosamente e amanhã deixará a saliva sobre os espectros. E este homem que escreve deitou-se com as algemas. Esta casa amarela. Meu Deus! Se você olhasse para mim. Mas não gosto que olhem para mim. Desconfio de mim que não durmo. (Por Rudinei Borges - 15 de junho 2008)