
Casa de Sidnei Vares - janeiro 2008 (por Rudinei Borges)
07 de junho 2008
Faz tempo o mundo não é o mesmo.
Nasceu uma espécie estranha de flor no jardim de minha casa.
Mas em minha casa não há um jardim.
Faz tempo eu olho para os edifícios desta janela
E, desta janela faz tempo, não vejo nada. Nem o nascer do dia.
Eu era abrupto. Como uma pedra. Eu era abrupto.
E quis casar com minha mãe.
E quis casar com meu irmão.
Eu era abrupto. Não mais que o bronze daquela estátua de anjo.
Eu amei aquele anjo.
E amei um menino louro que fotografava estátuas de anjo
Num cemitério.
Faz tempo eu não amo.
Nem este palhaço sobre a escrivanhia. Ele rir um riso estático.
Faz tempo eu não rio.
A Sra. Ema está correta. A esta hora as mulheres de respeito
Estão dormindo. A esta hora os homens de respeito estão dormindo.
A esta hora a porta da rua está fechada.
Agora, o que resta?
Cento e tantos livros. Um bíblia.
Eu li Cântico dos cânticos.
A esta hora Jesus cristo deve está no céu com os anjos.
O que Deus deve está fazendo a esta hora?
Faz tempo eu não penso em Deus.
Vou dormir.
Rudinei Borges (por Ernesto López)

Últimos galhos - dezembro 2007 (por Rudinei Borges)
16 de junho 2008
Tenho saudades de ti que não vens. Tenho saudades.
Mas nada é preciso quando a urgência é o anúncio
Amargo do fracasso.
O frenesi do opaco é irredutível.
Gosto de mim que sento nas escadas
Como quem esperasse. Gosto de não sentir sono.
E mesmo quando há felicidade as artérias estão cheias de vazio.
Não sou feliz. Não poderia ser feliz.
Amanhã o sol nascerá e terei que dizer aos homens
Que o meu estômago é igual ao deles.
Terei que proclamar aos espectros
Que a minha sina é uma arca corroída por cupins.
Mas não tenho coragem.
Terei que mentir.
Aliás, a cada manhã minto como um vagabundo ordinário.
Mas gosto de viver para poder contar as horas.
Quando o padre vier pedirei perdão.
Eu respiro como as mariposas.
Eu respiro como os mosquitos.
Eu respiro como os cavalos gregos.
Eu tenho ânsia como as rãs.
Eu sou um macaco.
Gosto de ser um macaco como gosto de não sentir sono e viver.
Gosto do gosto da saliva daquele arquiduque.
As minhas mulheres cometem adultério.
Tudo é tão tenebroso.
Tenho medo de você ir e nunca mais voltar.
Deixe-me.
Tenho saudades de ti que não vens. Tenho saudades.
Mas nada é preciso quando a urgência é o anúncio
Amargo do fracasso.
O frenesi do opaco é irredutível.
Gosto de mim que sento nas escadas
Como quem esperasse. Gosto de não sentir sono.
E mesmo quando há felicidade as artérias estão cheias de vazio.
Não sou feliz. Não poderia ser feliz.
Amanhã o sol nascerá e terei que dizer aos homens
Que o meu estômago é igual ao deles.
Terei que proclamar aos espectros
Que a minha sina é uma arca corroída por cupins.
Mas não tenho coragem.
Terei que mentir.
Aliás, a cada manhã minto como um vagabundo ordinário.
Mas gosto de viver para poder contar as horas.
Quando o padre vier pedirei perdão.
Eu respiro como as mariposas.
Eu respiro como os mosquitos.
Eu respiro como os cavalos gregos.
Eu tenho ânsia como as rãs.
Eu sou um macaco.
Gosto de ser um macaco como gosto de não sentir sono e viver.
Gosto do gosto da saliva daquele arquiduque.
As minhas mulheres cometem adultério.
Tudo é tão tenebroso.
Tenho medo de você ir e nunca mais voltar.
Deixe-me.
Rudinei Borges (por Ernesto López)
