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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Breviário da decomposição


"Seja qual for a resposta, posso dizer que nunca pedi para estar aqui e estando aqui, só penso em como sair, sem fazer ruído, sem que notem minha ausência, como se nunca tivesse estado e desta maneira, sentir a ilusão de não haver existido nunca.

De onde venho, não saberia dizer: nos templos, permaneço sem crenças; nas cidades sem ardor; junto aos meus semelhantes , sem curiosidade; sobre a terra, sem certezas. Dái-me um desejo preciso e derrubarei o mundo.

Livrai-me desta vergonha dos atos que me faz interpretar a cada manhã a comédia da ressurreição e a cada tarde a do enterro. Sonho em querer e tudo o que quero me parece sem valor. Como um vândalo roído pela melancolia, vago sem fim, eu sem eu, para não sei que lugar, para descobrir um deus abandonado, um deus que fosse ele mesmo ateu, e dormir à sombra de suas últimas dúvidas e de seus últimos milagres".

Breviário da Decomposição de Emil Cioran, filósofo romeno.
(Esta citação de Cioran foi inspirada numa breve conversa com Antonio que é leitor do filósofo romeno).