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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Carta para Dom





São Paulo, 6 de fevereiro 2008




Caro Dom,



Sabe, vivi quase sempre em Itaituba, no interior do Pará, floresta Amazônica à dentro. Hoje, penso que aproveitei tão pouco daquilo tudo, daquela gente toda. Eu era menos eu naquela época. Apesar de compreender que o meu espírito clama por estes edifícios, por este concreto de São Paulo, sinto falta daquele horizonte incerto que a Amazônia me trazia.


Mas o pior de tudo (e não imagine que é mais um devaneio poético) é que me sinto deslocado em qualquer lugar. Talvez por isso clame por uma gota pequena de paixão ou amor. É como se somente amando alguém e sendo amado eu pudesse me livar deste deslocamento.Não, eu não gosto de ser triste. E os meus poucos amigos dizem que sou um palhaço nato, porque falo futilidades o tempo inteiro e faço graças ao andar na rua. Quando vou ao Pará, os meus primos menores adoram a minha presença, porque os levo para passear e os faço rir como ninguém faz. Penso até em ter filhos algum dia. Ano passado fui professor de Ética para crianças de sete à dez anos e era amado por ser engraçado, de bem com a vida e por ministrar aulas animadas.

Porém, meu amigo, essa tristeza (um tanto amarga) é quase inevitável. Um dia escrevi um poema perguntando-me que “mal” é este? Só pode ser um mal, uma tuberculose que não quer sarar de nenhum modo. Até nos momentos mais felizes ela retorna com sua força. E tudo, quando silencio, é estranho e sem sentido. Não é depressão. É uma ausência devastadora, uma saudade que não cala. Não sei exatamente do que, e nem de quem sinto falta.

Chega, então, o instante em que o instinto de sobrevivência é maior, que o animal deseja “viver”. E, destarte, tomo a coragem que move as minhas forças nestes anos, e recito o mantra antigo: “Não quero ser triste”. E este amor que não vêm? Este amor que procuro? “Ela chegará”, alguns dirão entusiasmados. Mas o meu entusiasmo é pequeno, Dom. É miserável. Por isso, quando olho para Verlaine não é com admiração que olho, é com pena. Não é possível sofrer tanto. Talvez você tenha razão: é um sofrimento inventado.

Por que digo isto? O que você que está tão longe, na sua Bahia mítica, tem com este sentimento idiota? Você que é tão orgulhoso e tão indiferente. Por que você se interessaria por um acusador ridículo como eu, que o define como orgulhoso e indiferente, mesmo sabendo que você nem dá importância para isso? Decerto, para chamar atenção, você responderia. Talvez porque o ame. E por que o amaria se nem o conheço? Por nada. Apenas para dizer que estou próximo do nada e que esta escuridão é uma carência latente. O que importa os carentes se eu mesmo odeio o discurso da carência? Não sei.

Talvez, meu caro, eu o ame agora. Talvez eu passe a odiá-lo e um dia volte a amá-lo. Ou os fatores se inverterão. Talvez o que eu chame de amor seja mera inveja. Não, por que eu o invejaria?

Não quero conhecê-lo. Para que? Para rezar ao arrebol sabendo que jamais seria correspondido? Não, isto sim é desejar sofrer. Neste caso, é melhor refutar qualquer sentimento, qualquer candura. As ilusões tolas não levam a nada. Mas é preciso dizer. É preciso que se saiba a verdade, mesmo que ela seja uma mentira. Talvez você seja o meu mais novo personagem. E nem tenho coragem de criar um enredo para tal sina. É demasiadamente trabalhoso amar alguém.

Meu caro, creia em mim: eu quis ser menos ridículo do que fui. Para que amá-lo se você não é livre?

Utopia e luta, meu irmão!



Rudinei Borges